Sobre respeito, cautela e o que a romantização costuma esconder.
Falar da medicina da floresta ayahuasca, pra mim, é falar de algo sagrado.
O ritual de ayahuasca faz parte da minha vida desde 2019, e cada vez que consagro a bebida é como se fosse a primeira vez, o respeito nunca diminui com a repetição e sempre há um novo aprendizado.
Já foram dezenas de cerimônias, cada uma revelando uma camada diferente de mim mesmo, algumas leves e acolhedoras, outras difíceis, quase incômodas de atravessar, mas nenhuma delas sem propósito.

É um caminho de autoconhecimento e cura que vai muito além das cerimônias em si: passa pelo domínio da própria mente, pelo querer genuíno de despertar para o novo e se desvencilhar de velhos hábitos que já não servem mais.
Aprendi, nesse processo, que a planta não faz o trabalho por mim, ela só escancara a porta. Quem atravessa sou eu, com toda a resistência, o medo e, às vezes, a rendição que isso exige.
Também aprendi a respeitar o tempo de cada integração. Não é raro sair de uma cerimônia com mais perguntas do que respostas, e levar semanas, às vezes meses, pra entender o que realmente aconteceu ali dentro. Um processo que, até hoje, continua, e que provavelmente vai continuar por muito tempo ainda.
Neste artigo, quero trazer para você conhecimentos sobre a origem cultural da “madrecita”, o momento histórico que ela vive agora, e os cuidados reais que qualquer pessoa deveria ter antes de romantizar essa experiência. Tenha um bom voo!
O que é a ayahuasca (na cultura, não como substância isolada)
Já falei aqui no blog sobre medicinas da floresta de forma mais ampla sobre tradição, espiritualidade e responsabilidade que atravessam esse universo inteiro de saberes ancestrais. A ayahuasca é, sem dúvida, uma das mais conhecidas e discutidas entre elas, e merece um olhar próprio e mais detalhado.

A ayahuasca é uma bebida psicoativa preparada a partir do cozimento do cipó Banisteriopsis caapi (jagube ou mariri) com as folhas do arbusto Psychotria viridis (a “rainha” chacrona), fervidos na água por horas até formar um chá espesso e escuro.
O nome, de origem quéchua, significa algo como “cipó do espírito” ou em um sentido mais figurado “vinho das almas”, e essa tradução já entrega o que ela representa: não uma substância recreativa, mas um enteógeno, palavra que descreve justamente aquilo que gera experiência com o sagrado.
Essa mesma bebida carrega dezenas de nomes diferentes, dependendo da tradição e da região.
Além de ayahuasca, é chamada de hoasca, iagê ou yagé (mais comum na Colômbia), caapi, natema (entre os Shuar, no Equador), uni (para o povo Yawanawá), nixi pae (para o povo Huni Kuin, também conhecido como Kaxinawá), e, no contexto das religiões brasileiras, simplesmente Daime ou Vegetal, nomes que carregam a própria identidade doutrinária de quem a consagra.
Essa multiplicidade de nomes não é só curiosidade linguística: reflete quantas culturas diferentes, ao longo de milênios, desenvolveram relação própria e independente com essa mesma planta sagrada.
Estimativas arqueológicas, baseadas em vasos cerimoniais e artefatos encontrados na região andina, sugerem que o uso ritual de plantas semelhantes remonta a milhares de anos, possivelmente entre 1.500 e 2.000 a.C.
Uma descoberta mais recente reforça isso com evidência ainda mais concreta: uma bolsa xamânica milenar, costurada com focinhos de raposa e contendo resíduos químicos de plantas psicoativas, foi encontrada na Cueva del Chileno, no sudoeste da Bolívia, considerada por arqueólogos uma das evidências mais antigas já registradas do consumo ritual dessas plantas.
Ao longo desse tempo, a cultura da ayahuasca se espalhou muito além da bacia amazônica: segundo a artista e ativista indígena Daiara Tukano, aproximadamente 160 povos indígenas fazem uso dessa medicina em sete países diferentes (Equador, Brasil, Bolívia, Colômbia, Panamá, Peru e Venezuela), com territórios culturais que se estendem dos Andes ao Caribe, passando pelo Pantanal e pela Mata Atlântica.
Para essas culturas, a ayahuasca nunca foi só uma mistura de plantas: é percebida como um ser divino, capaz de facilitar o desprendimento da alma do corpo, carregado de conhecimento sagrado transmitido através de cantos, os icaros, e de rituais coletivos.
Foi só no início do século 20 que o uso da bebida ganhou uma nova camada no Brasil, com o surgimento de movimentos religiosos que integraram a ayahuasca a práticas cristãs, espíritas e afro-brasileiras: o Santo Daime, a União do Vegetal e a Barquinha, que vou detalhar mais adiante.
A partir dos anos 1990, com a globalização e a busca ocidental por experiências místicas, a bebida cruzou fronteiras e chegou a países como Estados Unidos, Austrália e boa parte da Europa.

Mas antes de entender essas religiões e o momento histórico que a ayahuasca vive agora, vale entender o que, tecnicamente, acontece no corpo de quem a consagra.
Ciência e espiritualidade: como a ayahuasca age no corpo e na mente
Vale entender, com calma, o que acontece por dentro de você durante a experiência com a medicina da floresta ayahuasca, sem mistificar nem assustar.
Do ponto de vista farmacológico, a Psychotria viridis (chacrona) contém DMT (dimetiltriptamina), substância que sozinha, tomada por via oral, seria quase totalmente destruída por uma enzima (MAO-A) no próprio intestino antes de alcançar o cérebro.
É aí que entra o cipó Banisteriopsis caapi (jagube): seus alcaloides, principalmente a harmina, inibem essa enzima, permitindo que o DMT sobreviva à digestão e chegue à corrente sanguínea e, de lá, ao sistema nervoso central.
Uma vez lá, o DMT age principalmente sobre receptores de serotonina do tipo 5-HT2A, os mesmos envolvidos na regulação de humor, percepção e cognição, o que explica a intensidade das alterações perceptivas provocadas pela bebida.
Existe também uma hipótese, popularizada pelo psiquiatra americano Rick Strassman em seu livro “DMT: The Spirit Molecule” (2001), de que o próprio corpo humano produziria DMT endógeno através da glândula pineal, o “terceiro olho” na tradição hindu e ponto associado à alma por filósofos como Descartes.
É uma hipótese sedutora, mas vale ser honesto: até hoje, segundo a literatura neuroendócrina mais recente, não existe evidência científica de que a pineal humana secrete DMT em quantidade suficiente pra induzir estados alterados de consciência, e o próprio Strassman sempre deixou claro que sua proposta era especulativa, não comprovada.
Do ponto de vista técnico e legal, sim, o DMT é enquadrado tanto como droga quanto como alucinógeno.
A Lei nº 11.343/2006, que institui o Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas, não lista substâncias específicas: no art. 1º, parágrafo único, ela define “droga” como aquilo que estiver “relacionado em listas atualizadas periodicamente pelo Poder Executivo”, e o próprio art. 66 da lei esclarece qual é essa lista, remetendo diretamente à Portaria SVS/MS nº 344/1998, onde o DMT está de fato listado como substância controlada.
Isso não significa proibição automática em qualquer contexto: como vou detalhar mais adiante, o próprio Estado brasileiro reconhece e autoriza especificamente o uso religioso da ayahuasca, através de resoluções próprias do CONAD (Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas), que falarei mais adiante.
Cientificamente, é descrito como um alucinógeno serotoninérgico (também chamado de psicodélico).
Mas essa é a linguagem da farmacologia e do direito, não a linguagem de quem consagra a bebida.
Foi justamente pra reconhecer essa diferença, entre o uso tradicional e espiritual e o uso recreativo, que o antropólogo canadense Kenneth Tupper cunhou, em seu artigo de 2002 “Entheogens and Existential Intelligence”, publicado no Canadian Journal of Education, o termo enteógeno, “aquilo que gera a manifestação do divino por dentro“, hoje o termo tecnicamente preferido em contextos religiosos e de pesquisa.
A molécula é a mesma; o contexto, a intenção e o significado atribuído à experiência é o que muda radicalmente, e é por isso que os ayahuasqueiros raramente se reconhecem na palavra “droga”, mesmo sabendo que é assim que a lei a enquadra.
Os efeitos físicos mais comuns incluem náusea, vômito (a chamada “purga”, com forte significado simbólico de limpeza dentro da tradição), aumento da frequência cardíaca, sudorese e dilatação das pupilas.
No campo psicológico, os efeitos vão desde alterações visuais e auditivas até uma sensação profundamente alterada de tempo e de identidade, com forte conteúdo emocional, que pode incluir catarse, revelações pessoais intensas, mas também episódios de medo ou angústia aguda, o que as tradições ayahuasqueiras chamam de peia (processo espiritual intenso de aprendizado).
Segundo o psiquiatra Wilson Gonzaga, que dirigiu por mais de duas décadas rituais com ayahuasca, a peia é, na prática, muito parecida com o que a ciência chama de bad trip, uma experiência desafiadora em que a pessoa se confronta com algo que a incomoda. A diferença é de interpretação, não de fenômeno: dentro da tradição, esse desconforto é lido como parte do processo de cura, não como acidente.
É exatamente essa intensidade, física e psicológica, que exige o cuidado e o contexto adequado discutidos ao longo deste artigo.
E é justamente esse contexto, quem cuida, quem preserva e quem decide o rumo desse conhecimento, que está sendo debatido agora mesmo, num nível global.

O Fórum Mundial da Ayahuasca: Um Marco Que Acabou de Acontecer
Enquanto escrevo este texto, um evento histórico acabou de se encerrar: entre 11 e 13 de setembro de 2026, a cidade de Girona, na Espanha, sediou o primeiro Fórum Mundial da Ayahuasca, reunindo lideranças espirituais indígenas, cientistas, pesquisadores, artistas e comunidades tradicionais pra debater ética, segurança e o futuro da bebida.
O que torna esse encontro particularmente simbólico é que, pela primeira vez, um evento global sobre o tema nasceu em parceria formal com o Conselho de Líderes Espirituais Indígenas, representado pelo Instituto Yorenka Tasorentsi, do Acre, e não como coadjuvante de pesquisadores ocidentais.
O fórum é um desdobramento direto de cinco edições da Conferência Indígena da Ayahuasca e de três edições da World Ayahuasca Conference, mas a novidade está em unir os dois mundos, o dos povos originários e o da ciência e políticas internacionais, num processo dialógico real.
Segundo Raine Piyãko, jovem liderança Ashaninka e codiretor do Fórum, a proposta reconhece que existem conhecimentos que não cabem nos parâmetros acadêmicos tradicionais, e por isso a chamada de trabalhos aceitou narrativas orais, práticas comunitárias, arte e experiências de vida lado a lado com pesquisa científica, sem hierarquizar saberes.
Benjamin De Loenen, fundador do Iceers e parceiro internacional do encontro, resumiu bem o momento que motivou o fórum:
“Vivemos um ponto crucial: é preciso construir processos que evitem a mercantilização das plantas sagradas e fortaleçam relações respeitosas com os povos que preservaram esses saberes por milênios.”
— Benjamin De Loenen, fundador do Iceers
Isso conecta diretamente com o próximo ponto deste artigo: quanto mais a ayahuasca ganha visibilidade global, maior o risco de ela ser reduzida a produto de consumo, esvaziada do contexto que sempre lhe deu sentido.
O caminho até Girona começou anos antes, dentro do próprio território brasileiro.
A primeira Conferência Indígena da Ayahuasca aconteceu no Acre em 2017, reunindo pela primeira vez na história lideranças de diferentes etnias amazônicas, detentoras desse conhecimento há gerações, num espaço só delas de troca e articulação política.
A quarta edição, realizada em 2022 no Instituto Yorenka Tasorentsi, produziu uma declaração que serviu de inspiração direta pro Fórum Mundial: um documento que reafirma a ayahuasca como patrimônio cultural indígena e cobra proteção contra a apropriação descontextualizada por parte de quem só chegou agora nesse universo.
Boa parte dessas lideranças vem de dentro das próprias religiões que a ayahuasca ajudou a fundar no Brasil, o Santo Daime, a União do Vegetal e a Barquinha, que merecem um olhar mais de perto.
Religiões ayahuasqueiras no Brasil: Santo Daime, União do Vegetal e Barquinha
No Brasil, o uso ritual da ayahuasca deu origem a três tradições religiosas sincréticas, que juntas somam milhares de adeptos espalhados pelo país e até no exterior.

O Santo Daime foi fundado por Raimundo Irineu Serra, conhecido pelos daimistas como Mestre Irineu e, após sua morte em 1971, como Mestre Juramidam, seu nome espiritual.
Nascido no Maranhão, filho de um homem que fora escravizado, Irineu foi um homem negro que fundou a primeira religião ayahuasqueira brasileira no Acre, na década de 1930, unindo elementos do catolicismo, do espiritismo kardecista e de tradições indígenas e afro-brasileiras; sua liturgia inclui os hinários, cantos considerados recebidos espiritualmente, entoados durante horas de cerimônia.
A União do Vegetal (UDV) nasceu em 1961, também no contexto amazônico, fundada por José Gabriel da Costa, com forte estrutura hierárquica, ênfase no estudo doutrinário e sessões marcadas por silêncio contemplativo, bem diferente da musicalidade do Daime.
Já a Barquinha, fundada em 1945 por Daniel Pereira de Mattos também no Acre, incorpora elementos da umbanda e do catolicismo popular numa liturgia bastante própria, com a figura do barco como símbolo central da travessia espiritual.
Vale destacar um aspecto pouco conhecido de fora dessas comunidades: no Santo Daime, o próprio processo de produzir a bebida sagrada é, em si, um ritual coletivo chamado feitio, considerado por muitos daimistas o “grande trabalho da doutrina”.
Segundo a tradição do feitio e adaptada por muitas casas ayahuasqueiras que seguem a doutrina, homens e mulheres dividem tarefas simbólicas: às mulheres cabe cuidar da folha, chamada de Rainha, considerada a força feminina; aos homens, cuidar do cipó, força masculina, entoando hinos e mantendo silêncio e concentração ao longo de dias inteiros de trabalho comunitário.
Não é um processo técnico qualquer, é tratado como um exercício espiritual em si mesmo, tanto quanto o próprio ritual de consagração que vem depois.
O reconhecimento legal dessas práticas no Brasil não veio da noite pro dia.
Em 2004, o CONAD publicou a Resolução nº 4, reconhecendo a legitimidade jurídica do uso religioso da ayahuasca, processo que já vinha sendo construído desde 1986.
Em 2010, a Resolução nº 1 ratificou essa decisão, mas com ressalvas importantes: vetou expressamente o plantio, preparo ou ministração da bebida com fins lucrativos, a exploração turística, o uso associado a substâncias ilícitas, e qualquer atividade terapêutica sem respaldo de pesquisas científicas.

Ou seja, o Estado brasileiro protege a liberdade religiosa, mas deixa claro que isso não é permissão pra comércio, curandeirismo genérico ou turismo espiritual.
Antes de romantizar: os riscos que a espiritualidade não anula
Existe uma frase que ouço com frequência, já citada em outro artigo sobre plantas medicinais, e que sempre me preocupa: “se é natural, não faz mal”. Não é verdade, e sustentar essa ideia é, na prática, o oposto de cuidar de si.
A ayahuasca contém inibidores da MAO (monoamina oxidase), e sua interação com antidepressivos, principalmente os inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRS), pode causar a síndrome serotoninérgica, condição causada pelo acúmulo excessivo de serotonina no sistema nervoso central.
Os sintomas vão de leves, como agitação, tremores, sudorese e taquicardia, até graves, incluindo febre alta, rigidez muscular intensa e convulsões, podendo ser fatal em casos extremos.
Há relatos documentados na literatura médica brasileira de emergências reais causadas por essa combinação, incluindo casos que exigiram atendimento hospitalar.
Por isso, tradições sérias e casas religiosas estabelecidas costumam recomendar acompanhamento e orientação de facilitadores experientes, com atenção prévia ao histórico de saúde de cada pessoa (anamnese), antes de qualquer participação em uma cerimônia.
Pessoas com histórico de esquizofrenia, epilepsia ou outras condições neurológicas também correm risco real: a bebida pode desencadear ou intensificar crises, mesmo sem “criar” essas condições isoladamente.
Gestantes e crianças estão entre os grupos que a maioria das casas religiosas sérias recusa servir, por prudência.
Vale destacar que, mesmo com estudos científicos sérios investigando potencial terapêutico, como o ensaio clínico randomizado publicado na Psychological Medicine em 2019 sobre efeito antidepressivo rápido em depressão resistente a tratamento, não existem evidências robustas o suficiente pra considerar a ayahuasca um tratamento médico estabelecido.
A ayahuasca não substitui acompanhamento psiquiátrico, e qualquer decisão nesse sentido exige avaliação profissional individual, nunca generalização.
Há ainda o risco que menos se fala: o do turismo espiritual predatório.
O aumento da busca ocidental por experiências místicas ou curativas – principalmente para problemas mentais e emocionais – criou, mundo afora, um mercado de facilitadores sem preparo algum.
Muitos casos de experiências negativas são divulgados, envolvendo até mesmo morte e violência. O Brasil também tem seus próprios casos, e não são poucos.
Em julho de 2022, o ator e dançarino Micael Amorim de Macedo, de 26 anos, morreu durante um ritual de uma “casa”, em São Sebastião (SP), após tomar três doses de ayahuasca e receber aplicações de rapé em meio a um surto psicótico.
A própria ICEFLU (Igreja do Culto Eclético da Fluente Luz Universal Patrono Sebastião Mota de Melo), entidade que representa oficialmente o Santo Daime no Brasil e no mundo, se manifestou publicamente esclarecendo que o grupo responsável pelo ritual não tinha relação alguma com a doutrina oficial, o que reforça como facilitadores independentes, sem vínculo com religiões estabelecidas e seus protocolos de segurança, ampliam o risco real.
Em dezembro de 2025, o Ministério Público do Distrito Federal recorreu da sentença que havia absolvido o responsável pelo ritual, pedindo condenação por homicídio culposo.
Em agosto de 2024, outro caso: um idoso de 67 anos morreu de parada cardíaca durante um culto numa igreja do santo daime, em Nova Lima (MG), reforçando que mesmo em contextos religiosos formais, condições de saúde preexistentes não avaliadas com cuidado podem ser fatais.
Um líder religioso de uma igreja em Mairiporã, na Grande São Paulo, que mistura elementos do Santo Daime com a umbanda numa linha apelidada de “umbandaime”, foi investigado pela Polícia Civil e Ministério Público em 2016, acusado por pelo menos 15 mulheres de abuso sexual e incitação ao uso de outras drogas durante os rituais.
Segundo o grupo Coame (Combate ao Abuso no Meio Espiritual), que apoia vítimas desse tipo de violência, existe um padrão que se repete nesses casos: a vítima chega fragilizada, buscando cura, e o agressor costuma ser alguém com poder legitimado dentro da própria comunidade religiosa, o que dificulta tanto a denúncia quanto o rompimento do ciclo de abuso.
Romantizar a ayahuasca como “cura garantida” ou “viagem espiritual turística” ignora completamente a seriedade que a própria tradição sempre exigiu, e pode custar caro, no sentido mais literal possível.
E na minha caminhada, já vivenciei várias destas situações imprudentes e negligentes de pessoas “dirigentes” despreparadas e indignas de assumir a responsabilidade de conduzir um ritual de ayahuasca.
Boa parte desses riscos, aliás, nasce exatamente de ignorar quem sempre soube cuidar dessa planta com a seriedade que ela pede.
Respeito aos povos originários: quem guarda esse conhecimento há milênios
Um artigo acadêmico publicado na Revista de Antropologia da USP descreve o campo ayahuasqueiro atual como “polifônico, polissêmico e policêntrico”, formado por uma multiplicidade de agentes: religiões brasileiras, diferentes povos indígenas, acadêmicos, vegetalistas amazônicos, neoxamãs e ONGs internacionais, todos dialogando (nem sempre de forma equilibrada) sobre o mesmo objeto sagrado.
O mesmo artigo lembra que enquanto pesquisadores e praticantes ocidentais “começaram agora” no mundo da ayahuasca, os povos indígenas já consagram a bebida há milhares de anos, uma assimetria histórica que raramente é reconhecida com a devida seriedade.

A Daiara Tukano, já citada acima, chama atenção pra um dado incômodo: atualmente, a ayahuasca é mais acessada por não indígenas, geralmente brancos e economicamente privilegiados, do que pelos próprios povos originários que preservaram esse saber por milênios.
Isso já conecta com o que discuti no artigo sobre Mãe Terra: a mesma cosmovisão relacional que trata rio e montanha como parentes também trata plantas sagradas como algo que se recebe com reciprocidade, não como recurso a ser extraído sem retribuição.
Respeitar essa origem, na prática, significa: buscar contextos legítimos e reconhecidos (religiosos ou indígenas), nunca tratar a experiência como souvenir de viagem, questionar quando um facilitador ou centro comercializa a bebida fora do contexto tradicional, e reconhecer publicamente, sempre que possível, de onde esse conhecimento realmente vem.
É com esse mesmo cuidado, respeito e com essa mesma gratidão, que falo da minha própria caminhada com a ayahuasca.
Minha experiência com o ritual de ayahuasca até aqui
Cada ritual que já vivi me devolveu algo que eu não sabia que estava perdido.
Às vezes foi coragem pra encarar uma dor antiga que eu insistia em varrer pra baixo do tapete.
Às vezes foi só silêncio, um silêncio que a vida corrida raramente permite, e que ali dentro se torna quase palpável.
Não existe cerimônia igual à outra, mesmo quando o cenário e as pessoas se repetem. A planta me mostra exatamente o que eu preciso ver naquele momento específico, nunca o que eu gostaria de ver.
Aprendi, com o tempo, que a verdadeira transformação não acontece dentro da cerimônia, ela só começa a partir dali.
O trabalho real é o que vem depois: sustentar, no dia a dia, o que foi revelado sob a luz daquele estado ampliado de consciência.
É fácil ter uma epifania sob efeito de um enteógeno; difícil, e valioso de verdade, é carregar essa epifania pra rotina, pros relacionamentos, pras escolhas pequenas do cotidiano. Esse processo de integração, pra mim, continua, e acredito que vai continuar por toda a vida.
Se você chegou até aqui curioso sobre esse caminho, o convite que deixo não é “experimente”, é “pesquise, respeite e escolha com consciência“.
A ayahuasca não é atalho, não é festa, não é produto. É um encontro sagrado que exige seriedade equivalente à sua própria força.

🎧 Ayahuasca: da Ancestralidade ao Laboratório
A origem milenar do ritual de ayahuasca, o que a ciência diz sobre como ela age no corpo e no cérebro, o Fórum Mundial que acabou de acontecer, as religiões ayahuasqueiras brasileiras, e os riscos reais que a romantização costuma esconder, gerado com NotebookLM a partir deste artigo do blog Beija-Flor Curador.
🪶 Voe mais alto
Curadoria para continuar esse mergulho.
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Um dossiê visual, gerado pelo NotebookLM a partir deste artigo, reunindo ciência, ancestralidade e os riscos reais dessa medicina da floresta.
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Produzido pelo CICLU (Centro de Iluminação Cristã Luz Universal), sob direção de Antônio Macedo e Valcírio Grangeiro, sobre a vida de Mestre Irineu, já citado neste artigo, fundador do Santo Daime.
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Acompanha um jovem americano com depressão em busca de cura através da ayahuasca no Peru. Vale assistir com espírito crítico: o próprio documentário expõe, sem querer, o problema do turismo espiritual e da comercialização descuidada que este artigo alerta pra evitar.
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Acompanha o dia a dia de uma xamã ayahuasqueira mulher, tratando de reconexão cultural, trauma intergeracional e o papel das mulheres nas tradições xamânicas, contrastando percepções ocidentais romantizadas com a realidade da prática.
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🎙️ Flow Podcast episódio #540 — com o psiquiatra Wilson Gonzaga
Um papo sobre saúde mental, ciência e espiritualidade com o psiquiatra já citado neste artigo na explicação sobre a “peia”, que dirigiu por mais de duas décadas rituais com ayahuasca.
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🎙️ Tribe Zen Podcast, com Lucas Aldi e Soliris Longo
Autoconhecimento e espiritualidade de mente aberta, com vários episódios dedicados a relatos e reflexões sobre ayahuasca e outras medicinas sagradas ao longo do acervo do podcast.
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Você já teve contato com a ayahuasca ou com alguma religião ayahuasqueira? Como foi essa experiência pra você? Conta aqui embaixo, com respeito e sem julgamento, o que essa jornada, se você já trilhou ela, te ensinou.
Aviso legal: Este artigo tem caráter exclusivamente informativo, educativo e cultural. Não incentiva, ensina ou orienta o preparo, dosagem, aquisição ou uso de ayahuasca ou qualquer substância. O uso religioso da ayahuasca é reconhecido no Brasil (Resolução CONAD nº 4/2004 e nº 1/2010), mas o conteúdo aqui não substitui orientação médica, psiquiátrica ou de uma instituição religiosa reconhecida. Este conteúdo não deve ser interpretado como incentivo ao uso recreativo, turístico ou fora de contextos legítimos.